Gengibre: Dos textos antigos à ciência

Chamado de Vishwabhesaj (विश्वभेसज्), que significa “remédio universal”¹, pelos antigos médicos indianos, o Gengibre (Zingiber Officinale) atravessou milênios como a erva mais terapêutica de toda a Fitoterapia Clássica.

Adotado por quase todas as culturas do mundo, ele foi sempre usado como pilar de uma digestão saudável. Mencionado não só na Índia, mas desde a Grécia e Roma antiga e, até mesmo, na China o sábio Confúcio (500 a.C) teria escrito que não realizava nenhuma refeição sem Gengibre.² Pesquisas médicas e testes clínicos modernos também comprovaram sua eficiência no tratamento de muitas das doenças mais comuns atualmente, resgatando a importância de seu consumo não só em tratamentos, mas na alimentação diária como prevenção.

Dentro da alimentação ayurveda o Gengibre é essencial para termos o Agni (fogo digestivo) equilibrado, nos ajudando naturalmente não só a queimar o excesso de Ama (toxinas) no corpo, mas como prevenir a sua acumulação. Consumir Gengibre em nosso dia a dia nos ajuda a melhor digerir, absorver e assimilar os nutrientes dos alimentos, além de ser uma erva carminativa, ou seja, ele cria uma experiência pós-digestiva confortável, prevenindo também o surgimento de gases oriundos de uma digestão em desequilíbrio.

O consumo frequente de Gengibre gera um efeito dominó de benefícios, pois uma digestão forte leva naturalmente ao Ojas forte, termo ayurvédico que significa sistema imunológico forte, ou em outras palavras a tríade: vitalidade, vigor e contentamento. Outro efeito marcante é como ele ajuda na expectoração, limpando o excesso de Kapha das vias respiratórias e pulmões. Até mesmo o tecido reprodutor (Sukra Dhatu) é beneficiado, principalmente em mulheres que apresentam muitos distúrbios no baixo abdômen, devido ao excesso de Vata. Harmoniza o Pitta presente na circulação sanguínea, melhorando a saúde cardiovascular do organismo.

A tradição do Ayurveda descobriu ao longo de centenas de gerações seus inúmeros usos, que vão desde Agni dῑpana, a função de acender o fogo digestivo, à Kāsaśvāsahara, sua propriedade de aliviar a tosse e diminuir desconfortos respiratórios. Para fazer justificar o apelido de “remédio universal”, podemos destacar para vocês alguns dos mais importantes benefícios do Gengibre, que comprovam com evidências científicas* o que o Ayurveda já mencionava há milênios: (*ver bibliografia)

– Anticarcinogênico: Previne a incidência e o desenvolvimento do câncer no organismo.
– Anti-inflamatório: É muito importante no tratamento de inflamações crônicas, pois modula as vias bioquímicas ativadas em processos inflamatórios.
– Antimicrobial e Antifúngico: Devido aos componentes relacionados ao gingerol
– Anti-soluço (Hikkānigrahaṇa)
– Analgésico (Vedanāsthāpana): Reduz sensações de dor no corpo
– Antiemético (Chardinigrahaṇa): Ajuda em náuseas e enjoos
– Aromático: Pode ser usado na aromaterapia para nos dar mais vitalidade mental
– Carminativo: Diminui gases e inchaço abdominal
– Desintoxicante (Āmanāśaka): Essencial na destruição das toxinas (Ama)
– Diaforético (Śitapraśamana): Reduz a sensação de frio e induz o suor
– Digestivo (Pācana): Estimula o fogo digestivo, auxiliando na quebra e assimilação mais fácil dos nutrientes.
– Estimulante: Melhora toda a circulação do organismo
– Expectorante: Limpa o muco das vias respiratórias, indo na raiz do desequilíbrio
– Hemorroidas (Arśoghna): ajuda no seu tratamento e remoção
– Hepato-protetivo: Possui um efeito colagogo, estimulando a produção de bile por causa de sua propriedade pungente. (Estudos recentes usando o extrato alcoólico aquoso de gengibre concluiu que ele funciona tanto na prevenção do declínio do status de antioxidantes hepáticos ou devido a sua direta capacidade radical de limpeza. Outro experimento comparou as capacidades hepato-protetivas do gingerol com o fármaco padrão Silymarin e descobriu que eles funcionam igualmente.)
– Nervino: Acalma nervos frágeis
– Rejuvenescedor (Rasāyana): Devido a suas propriedades antioxidantes
– Sialagogo: Aumenta a secreção da saliva

Todas essas indicações do Gengibre precisam ser interpretadas á luz do Ayurveda para que um Terapeuta possa indicar o uso e as dosagens corretas para as peculiaridades de cada pessoa e seu Dosha. Portanto, apesar de que seu uso culinário moderado seja seguro para a maioria das pessoas, para buscarmos um tratamento mais efetivo dos desequilíbrios precisamos acompanhar o indivíduo de perto através do Programa da Terapia Ayurveda. Agende sua sessão!

Abaixo sugerimos aplicações práticas do Gengibre para você experimentar em sua rotina:

– Beba chá de Gengibre:

Ferva, por ao menos 5 minutos, 3 a 4 rodelas de Gengibre fresco em 2 xícaras de água e tome morno. Para harmonizar com os Doshas você pode experimentar o há com outras ervas: Pittas podem associá-lo com hortelã, Vatas com Erva-Doce e Kaphas com Canela.

– Água de Gengibre:

Uma alternativa mais fácil que o chá, mas que não o substitui. Simplesmente coloque rodelas de gengibre em uma jarra d’água, experimente com folhas de menta e manjericão.

– Adicione pitadas de Gengibre em pó em suas refeições:

Ao fazer uma receita ou mesmo sobre o prato, pois ele se harmoniza facilmente com muitos alimentos.

– Shot de Gengibre:

Busque sempre respeitar a sua fome e comer quando sentir verdadeira fome. Se você estiver sem fome verdadeira, busque estimular o Agni (fogo digestivo) com o seguinte shot de gengibre antes de uma refeição, uma receita para o despertar a digestão:
Ingredientes e modo de fazer:
Gengibre: 1 colher de sopa do suco da polpa
(rale o gengibre, coloque o em uma peneira e esprema até sair todo o seu caldo)
Suco de limão: 1/2 colher de sopa
Mel: 1 colher de café

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Namastê,
Marcus Fonseca e Débora Nogueira

Bibliografia de pesquisa:

¹ Drs. David Frawley and Vasant Lad – The Yoga of Herbs: an Ayurvedic Guide to Herbal Medicine, 2nd ed. (Twin Lakes: Lotus Press, 2001)
² Sebastian Pole – Ayurvedic Medicine: The Principles of Traditional Practice (London: Singing Dragon, 2013)
³ Dr. Vasant Lad – Textbook of Ayurveda, Vol. 1: Fundamental Principles of Ayurveda.
– Charaka Samhita
– R.K. Goel and K. Sairam. “Anti-Ulcer Drugs from Indigenous Sources with Emphasis on Musa Sapientum, Tamrabhasma, Asparagus  – Racemosus, and Zingiber Officinale,” Indian Journal of Pharmacology 34 (2002): 100- 110.
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– NC Azu and RA Onyeagba, “Antimicrobial Properties Of Extracts Of Allium cepa (Onions) And Zingiber officinale
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respiratory distress syndrome patients hospitalized in an intensive care unit,” Journal of Critical Care 25.4 (2010):647-650.
– Owyang Chung, et al., “Effects of ginger on motion sickness and gastric slow-wave dysrhytmias induced by circular vection,” American Journal of Physiology 284.3 (2003):G481-G489.
– T.A. Ajith, et al., “Zingiber officinale Roscoe prevents acetaminophen-induced acute hepatotoxicity by enhancing hepatic antioxidant status,” Food and Chemical Toxicology 45.11 (2007): 2267-2272.
– Harish Nayaka Mysore Annaiah, et al., “Gastroprotective Effect of Ginger Rhizome (Zingiber Officinale) Extract: Role of Gallic Acid and Cinnamic Acid in H+, K+-ATPase/H. pylori Inhibition and Anti-Oxidative Mechanism,”
– NC Azu and RA Onyeagba, “Antimicrobial Properties Of Extracts Of Allium cepa (Onions) And Zingiber officinale
– Park, et al., “Antibacterial activity of *10+-gingerol and [12]-gingerol isolated from ginger rhizome against
– Castro, Brenda – Ginger: An Ancient Panacea for Modern Times (https://www.ayurvedacollege.com/blog/ginger)
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– Jennifer B. Frye, et al., “Comparative Effects of Two Gingerol-Containing Zingiber officinale Extracts on Experimental Rheumatoid -Arthritis,” Journal of Natural Poducts 72.3 (2009): 403-407.
– RD Altman, et al. “Effects of a ginger extract on knee pain in patients with osteoarthritis,” Arthritis and rheumatism 44.11 (2001): 2531-8.
– Kim, et al. “6-Shogaol, a ginger product, modulates neuroinflammation: A new approach to neuroprotection,”
– JK Kundu, et al., “Ginger-derived phenolic substances with cancer preventive and therapeutic potential,” Forum
– SK Chuau, et al., “Effect of Ginger on Gastric Emptying and Motility in Healthy Humans,” European Journal of Gastroenterology and Hepatology 20.5 (2008): 436-440.

 

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