A mente não ilumina, mas o coração desabrocha

Um momento chave no aprofundamento de si através da meditação é quando discernimos o ego ou personalidade que busca se auto aperfeiçoar, da presença interior que já é quietude e realização inabaláveis. Observar claramente este ego que deseja meditar, compreender, sentir graça etc., é essencial para não alimentar um movimento da personalidade que busca se espiritualizar a partir de um ponto sem força.

O ego é um veículo para realizar a função de mediar o mundo, organizar conceitos, organizar um “eu” próprio, simbolizar o real, rememorar, proteger o corpo, proteger concepções de mundo etc… Sendo assim, nosso ego compreende a importância da meditação, do ponto de vista de quem quer melhorar, sentir menos dor, ter mais paz, ser uma pessoa mais valorosa, porém não está pronto para compreender a joia da meditação. A partir do ego podemos nos pôr a meditar para chegarmos a algum lugar, mudarmos, transformarmos, pois sentimos que nos falta algo ou porque o presente não é bom o suficiente. Porém estes são alguns movimentos que devem ser farejados e discernidos: “eis aqui minha mente/ego”, até restar apenas uma pergunta: Quem observa tudo isso?

Se meditar não deve se limitar a uma ação que me leve a algo ou algum lugar, então como será o horizonte além disso?

Quando nos aquietamos um pouco para observarmos os pensamentos que nascem de nossa personalidade/ego/identidade/mente/, percebemos que eles normalmente nos lançam para outra coisa além do momento presente, seja algo que ocorreu no passado ou que desejamos para o futuro. Normalmente somos bombardeados com pensamentos como “e depois?”, “como resolver isso?”, “seria bom descansar agora, comer algo, checar o e-mail, dormir, papear, ler um livro…”.

Não estamos muito acostumados a nos esquecermos de nós na quietude de nosso coração. Apontar uma possibilidade de transcender o hábito mental que gera sofrimento, desde sua raiz, é o que vários grandes mestres tem feito em prol da humanidade.

Estudando esta diversidade de ensinamentos podemos colher algumas pérolas de sabedoria:

Quietude:

 “Uma mente quieta é tudo que você precisa. Todas as outras coisas irão acontecer como devem, uma vez que sua mente estiver quieta. Como o sol ao se levantar torna o mundo ativo, também a autoconsciência produz mudanças na mente. Sob a luz de uma autoconsciência calma e contínua, energias interiores despertam e produzem um estado de graça sem qualquer esforço de sua parte.”
~ Sri Nisargadatta Maharaj

“Dentro de ti há uma quietude, um santuário no qual podes te recolher em qualquer momento e ser quem tu és.”
~ Hermann Hesse

“A meditação não é uma forma de aquietar a sua mente. É uma forma de penetrar nesta quietude que já está lá, enterrada sob os 50,000 pensamentos que uma pessoa comum pensa diariamente.
~ Deepak Chopra

A raiz do sofrimento:

 “A grande maioria das pessoas vivem vidas guiadas por desejo e medo. O desejo é a necessidade de adicionar algo a si mesmo com o objetivo de ser mais completamente você mesmo. Todo medo é o medo de perder algo e assim tornar-se diminuído ou ser menos. Esses dois movimentos obscurecem o fato de que o Ser não pode ser dado ou retirado. O Ser em sua completude já está dentro de você, Agora.”

~ Eckhart Tolle [In: O poder do agora]

Discernimento:

“Quando a falsa percepção é corrigida, nossa miséria também termina.”
~ Adi Shankaracarya [In: A Jóia Suprema do Discernimento ]

“Buscador: “Ensina-me o caminho para a libertação.
Mestre Zen: “Quem te mantém atado?”
Buscador: “Ninguém.”
Mestre Zen: “Então, por que buscas a libertação?”

Observar os pensamentos e exercermos a liberdade que temos diante deles, de agir ou não agir, de alimentar aquela história ou deixá-la passar, de sentir profundamente uma emoção até que ela se esgote e percebermos que há um horizonte para além de uma reatividade superficial. Assim, ficamos mais livres em nossa vida para reagirmos menos e respondermos mais de acordo com a totalidade de nosso ser.

O Presente:

“O início do universo é agora, pois todas as coisas estão sendo criadas neste momento; e o fim do universo é agora, pois todas as coisas estão desaparecendo neste momento. […] Assim, o Zen algumas vezes é descrito como ‘retidão’ ou ‘caminhar direto para frente’, pois o Zen é mover-se com a vida, sem tentar parar ou interromper o seu fluxo; é a consciência imediata das coisas à medida que vivem e se movem, diferente da mera captação de ideias e de sentimentos sobre as coisas, símbolos apagados de uma realidade viva”
~ Alan Watts [In: O espírito do Zen]

Entrega:

“Quando nos rendemos àquilo que é e assim ficamos inteiramente presentes, o passado deixa de ter qualquer força. A região do Ser, que tinha sido encoberta pela mente, se abre. De repente surge uma grande serenidade dentro de você, uma intensa sensação de paz. E dentro dessa paz existe uma grande alegria. E dentro desta alegria existe amor. E lá no fundo está o sagrado, o incomensurável, o que não pode ser nomeado.”
~ Eckhart Tolle [In: O poder do agora]

Há um espaço no Ser que sempre é quietude, silêncio e paz. Este espaço nunca muda, é fonte de paz o tempo todo. Desabrochar o coração e reconhecer esse espaço é essencial para nossa vida, visto que podemos e precisamos sempre voltar e beber novamente desta paz para retomarmos um posicionamento em nosso cotidiano que corresponda com nossas mais altas capacidades.

por Débora Nogueira

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