Meditação para além da técnica – II: Tradição

 “O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momentoGirasol - 01
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…”

~Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

É necessário um aprendizado para reconhecermos nossa presença e a eterna novidade do mundo. Este olhar fresco é espontâneo, mas não comum. As tradições religiosas e espirituais seculares tiveram o papel de auxiliar nossa iniciação ao mistério através de um encontro entre mestre e discípulo. Vários ensinamentos para essa educação da abertura foram elaborados culturalmente durante centenas de anos, vários papiros e livros foram escritos, diversos conceitos foram cunhados. Mas um apontamento dentre esses ressoa em uníssono: A importância do silêncio e da quietude. O mistério se mostra sempre, mas é necessário um preparo para reconhecê-lo no presente de nossa vida cotidiana.

Há três conceitos da filosofia do Yoga que podem clarear um pouco mais a importância deste olhar que é sempre novo, mas ao mesmo tempo antigo na tradição da humanidade. Tais conceitos são Dharana, Dhyana e Samadhi.

Dharana pode ser transliterado a partir do sânscrito como concentração. A concentração seria este momento do olhar atentamente. Trata-se de uma limpeza do olhar, quando me abro e estou receptiva para ver as coisas como elas se mostram. Mas o que é importante “limpar” que antes me atrapalhava? Não só o vício em explicar e se limitar ao conceito que as coisas adquirem, como apontado na parte I, mas também o vício em se entreter com todas os comentários que povoam nossa mente incessantemente que sempre tentam acrescentar algo que eu imagino. A ênfase da concentração não recai em tentar parar tal fluxo de pensamentos que fogem do foco, mas sim em refrear o interesse em segui-los.

Dharana se mostra importante pois nos prepara para Dhyana, que seria a meditação, o aprofundar no silêncio e alcançar seu fim, o Samadhi (apenas ser/êxtase espiritual). O sentido da meditação é em direção ao reconhecimento das coisas como elas são, inclusive o reconhecimento do que sou eu, e a realização disto é Samadhi. Quando em Samadhi, eu consigo ver a flor e seu desabrochar, consigo ver que a flor e eu estamos em uma interação intrínseca (observação da consciência-de), e reconheço uma fonte em nós que nos conecta criando pertença, onde eu percebo minha articulação com o mistério infinito e quem sou.

A concentração me mostrou que deter a atenção orientada a um ponto por algum tempo é ocasião para aquilo a que me foco se desvele. Basta a atenção criteriosa e silêncio. Sem o critério, tendo a me dispersar, distrair na diversidade. Sem o silêncio, posso me perder sem um ponto a retomar. Por fim o silêncio abre espaço e nos convida a reconhecer a presença, como quem diz… “Sinta-se livre para ser, do jeito que se está desvelando ser agora”.

A meditação é uma prática que nos treina para finalmente silenciar. Os pensamentos não param de fluir, mas o interesse não se prende a eles. Depois de um tempo as ideias ficam como uma ilha para um oceano, e é possível observar cada vez mais o profundo que simplesmente é.

A totalidade é como o sol e a ideia seria uma flecha lançada que vislumbra apenas um ponto. Se balizarmos nossa auto percepção apenas pelos conceitos limitantes que colecionamos sobre nós, captaremos não mais do que pontos em um espaço em expansão.

Permitir o silêncio é uma experiência de liberdade, é acolher o mistério que é a vida em sua totalidade e responder “sim”. Muitas vezes há um pedido de repouso, de permissão para a experiência de vazio, da aparente ausência de sentido, acontecer, daquilo que me é dado sem causa aparente, existir. Neste repousar, a flecha da pergunta/dúvida em busca de sentido que lanço para o mundo volta para dentro, volta para um senso de existir indubitável, e aquieta-se ali.

Mas o que nos impulsiona a buscar?

“As uvas querem se transformar em vinho”
(Rumi)ovo

 “Não sei o que sinto…
Mas sinto que preciso subir,
Que preciso voar, que preciso de espaço infinito,
O que sinto são as asas que pedem mais azul,
São as asas que pedem mais espaço,
São as asas que pedem mais estrelas.
Não sei o que sinto…
Mas sinto que a terra não basta,
Não basta para mim,
Pássaro do cominho”
(Alfonso di Nola, 2001)

Comumente vemos pessoas alheias a si mesmas e aos acontecimentos, sentem-se vítimas do tédio e ávidas por distrações com entretenimentos sempre novos, melhor quanto mais forem capazes de forjar algo que as façam esquecer da dor e das perguntas fundamentais que a vida nos lança.

Estamos distraídos como se tivéssemos sido arrancados de nós próprios, (…) esquecemos a grandeza de que somos portadores e, por isso, vivemos longe de saborear a fonte vital do impulso original.” (GIUSSANI, 2003 pp. 33)

A dor pode ser um chamado para acolher algo que exige atenção. Há em nós perguntas fundamentais e exigências que nos orientam a sermos mais nós mesmos. Exigência de sentido, de liberdade, de amor, de verdade, de mais… Palavras que evocam ir além dos limites conhecidos pois em nós algo importante e urgente precisa de espaço para nascer. Podemos colher na dor diante do limite um dinamismo que se apresenta como um impulso por ir além, isso é fundamental para estruturar a pessoa humana e afirmar algo da ordem do que realmente importa.

As exigências nos lançam ao mundo na busca de sentido e aspiração a um significado que englobe radicalmente pessoa, mundo e vida/existência como totalidades articuladas. Totalidade pois não se esgota em sua abrangência, não se completa, sempre reabre… A realidade do homem é relação com o infinito (Giussani). Buscamos reorientarmos a partir de um movimento humano que têm uma direção, que flui não para uma resposta apaziguadora, mas para o deslumbramento sem limites do mistério.

bird

Por Débora Nogueira
debora@institutoentreser.com.br


Bibliografia:

GIUSSANI, Luigi. Realidade e Juventude: o desafio. Lisboa: DIEL, 2003

MAHFOUD, M. Experiência elementar em psicologia: aprendendo a reconhecer. Belo Horizonte: Artesã, 2012.

NISARGADATTA, M. S. I Am That: Talks with Sri Nisargadatta Maharaj, 1988

PARREIRA, Walter. Fenomenologia e espiritualidade: consciência e meditação. Memorandum (Belo Horizonte), v. 27, pp.61-72, 2014. Disponível em: http://www.fafich.ufmg.br/memorandum/a27/parreira01/

PARANJALI, The Yoga Sutras of Patañjali. Mineola, N.Y Dover Publications : 2003

PESSOA, Fernando. Obras poéticas. Editora Nova Aguilar

PRADO, Adélia. Arte como experiência religiosa. In: MASSIMI, M.; MAHFOUD, M. (Org.). Diante do Mistério: psicologia e senso religioso. 1 ed. São Paulo: Edições Loyola, 1999, pp. 17-32.

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